• Sergio Hora

Depressão: se não for você, alguém perto de você está passando por isso


Foi acontecendo tudo muito sutilmente. Eu já não dormia mais tão bem durante a noite; havia uma tristeza profunda marcada no peito e que se espalhava por todo o corpo, pesando os olhos todo o tempo; minha cabeça, por outro lado, não parava de pensar – a maior parte destes pensamentos carregados de grande negatividade; as lágrimas vinham por quaisquer motivos, até mesmo durante o comercial de pasta de dente na TV; uma sensação de menos valia tomava cada centímetro cúbico do meu ser e meu humor variava de minuto a minuto, afastando-me cada vez mais dos ambientes coletivos.

Alguns olhares diziam “Isto é frescura”, outros diziam “Coitado, por que será que está deste jeito? Sua vida não é tão ruim assim”.

Há muitos tabus, mitos e preconceitos envolvendo todas as doenças mentais e a saúde mental no país, sobretudo do ponto de vista da saúde pública, recebe pouca atenção. Mas os dados estão aí, claros e assustadores. A Organização Mundial da Saúde considera que de 8% a 13% da população mundial sofre com a doença – sim, doença! – da depressão. Os casos aumentaram cerca de 18% nos últimos 10 anos. São cerca de 322 milhões de pessoas nesta situação em todo o mundo e o Brasil apresenta o maior índice de incidência em toda a região da América Latina.

O meu prazer pelas coisas e pela vida simplesmente foram se esvaindo entre os dedos e uma sensação de descer o elevador em velocidade acelerada era uma constante diária. O trabalho já não respondia da mesma forma, as relações já não se estabeleciam de forma tão fluída, a família transformara-se em um peso e uma vontade de “conchinha”- nome que dei à sensação de querer implodir em si mesmo e desaparecer da vista de tudo e de todos – acompanhava-me a cada instante do dia e da noite. Por outro lado, um grito sufocado de ajuda chegava à garganta, mas não havia força necessária para que se fizesse ser ouvido. Neste contexto, a ideia do suicídio também se fez presente, outro tabu que irei discorrer em um próximo artigo.

Uma das principais coisas a se fazer para sair desta situação é reconhecer que está doente e que é preciso pedir ajuda. Mas como fazê-lo se você mesmo está encharcado por todo o preconceito que as doenças mentais tem em nossa sociedade? Por isso, o apoio de familiares e amigos é fundamental, de forma a dar abertura ao reconhecimento do problema e ao pedido de ajuda.