• Sergio Hora

O que o Coringa pode nos revelar


Imagem: Filme Coringa

O novo filme de Todd Phillips, Coringa, não apenas alcançou uma bilheteria espantosa, mas também alimentou um sem número de análises dos ditos especialistas nas mais variadas áreas, e, também, dos "não-especialistas" em todo o mundo. Demorei um pouco para assistir ao filme – pura questão de agenda-, mas li muito material dando conta de analisar os mais variados aspectos desta obra cinematográfica.



A construção do Coringa


O ator, Joaquin Phoenix, que interpreta Coringa, mencionou na imprensa que "Quando li pela primeira vez, senti que muitos de seus comportamentos e ações foram desprezíveis", "Vi que em certos momentos ele estava em luta ou fuga. Eu reconheci esses sinais que me permitiram pensar nele de forma diferente. É difícil não ter simpatia por alguém que experimentou esse nível de trauma na infância: uma medula super estimulada (causa do riso excessivo da personagem) e a procura e a percepção do perigo em todos os lugares", "Para alguém nesse estado, isso significa que suas ações fazem sentido ou são justificadas? Obviamente não. Há um ponto em que ele cruza a linha onde eu não sou mais capaz de ficar ao seu lado".



A arte como elemento de reflexão


Como toda arte, o filme nos incita a reflexões de toda ordem; ora exagera e irrita alguns puristas, ora cobre o enredo com uma suave névoa de mistério e dúvida que nos faz imaginar vários enredos tangenciais e acaba por nos provocar a entrar na mente da personagem protagonista em busca da explicação mais verossímil. E tudo bem! Na verdade, alguns detalhes não precisam importar tanto. Eles acabam por emprestar à obra um certo ar de mistério que alimenta nossa imaginação, mas que, sobretudo, nos revela aspectos da vida humana que valem a pena serem debatidos, mas sem convidarmos à mesa de discussão a dualidade restritiva.



Algumas possibilidades reveladas


No entorno desta mesa, poderíamos debater a questão das políticas públicas de saúde, em especial aquelas ligadas à saúde mental. Se a área da saúde, sob diversos aspectos, ressente-se de muitos cuidados adicionais, certamente é a subárea da saúde mental que cada vez mais conclama uma atenção maior da sociedade, tanto para a alocação dos diversos tipos de recursos, quanto para a entendimento das inúmeras psicopatias existentes, haja vista o incremento crescente dos números de casos surgidos e diagnosticados.


Uma outra possibilidade, seria debatermos as questões sociais que a película ressalta, ainda mais com o reforço das tensões entre classes, temas todos tão atuais, ainda, na maior parte do globo. Segue-se, a violência, tão presente na história, que em muitas discussões tomou todo o espaço. Nos EUA discutiu-se muito a questão das armas, tema sempre muito presente naquele país.


E, por fim, mas muito longe de exaurir as possibilidades, focarmos na questão das doenças e do (auto)cuidado, que é o que temos feito em nossos textos e vídeos propostos ao longo dos últimos meses.



A questão da saúde mental


Nosso protagonista nos leva entre o amor e o ódio, a compreensão e o desprezo por toda a história, mas é inexorável identificarmos o quanto a humilhação, o abuso e o abandono estiveram presentes em sua vida. Ele começa a perder o controle quando a sensação de que o mundo ao seu redor o trata com excessivo desdém. A despeito dos aconselhamentos, que mais tarde são interrompidos, bem como o acompanhamento da sua medicação, a personagem sente-se não escutada. Seus “pensamentos negativos”, assim descritos, não ressoam no interlocutor mais direto, a assistente social, em ou quaisquer outros convivendo no seu entorno. E quantos de nós já não nos sentimos desta forma? Lembrei-me, neste momento do filme, de uma jovem, que tendo tentado o suicídio, em tratamento num grande hospital de referência em São Paulo, mesmo após dois anos, mencionou ter estes “pensamentos ruins” constantemente. Aquela fala pública me abalou profundamente.



Eu estou doente!


Em dado momento ele escreve em seu diário “A pior parte de uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não as tivesse”. Para quem tem alguma forma de doença mental e, além disso, sente que precisa esconder qualquer faceta desta doença, seja ansiedade, depressão, aspectos de bipolaridade ou qualquer outra coisa, ou ainda todas elas juntas, para ser 'aceito', 'encaixado' e visto pela sociedade é uma luta cotidiana muito pesada. A sociedade ainda não está muito disposta a aceitar as doenças mentais e encarar esta questão de frente e de forma madura.


Querer enquadrar-se na “caixinha” só nos afasta de nós mesmos e, no caso de estarmos com alguma questão de saúde, gera o pior dos abandonos, o de nós mesmos.



Conscientização e envolvimento


O Coringa pode ser uma obra de ficção, mas está muito enraizada nos cuidados de saúde mental do mundo real, que raramente é representado na tela de maneira tão crua, como o realizou Phillips. Por isso, ainda que traga muita controvérsia, o que eu pessoalmente acredito ser positivo, a obra expõe esta ferida de forma contundente e necessária. Às vezes, o que as pessoas com doença mental mais querem é compaixão e compreensão.


Se este filme fizer o público olhar para dentro e iniciar um debate sobre a necessidade de melhores serviços de saúde mental, isso pode ser considerado um bônus. Mas, se ao menos ao sair do cinema isso nos encorajar a entender um pouco mais como estas pessoas (e nós, por que não?) sofrem, já é algo bastante positivo.


Viva com saúde!!

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Sergio Hora - Terapêutica Integrada

Facilitador certificado de Barras de Access®, Facelift® Energético e processos corporais de Access Consciousness®; terapeuta de SE-Somatic Experiencing® e Florais Alquímicos de Joel Aleixo®. Mestre em ciências pelo Depto. Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP e graduado em Tecnologia da Informação. Especialista em políticas públicas nas áreas da saúde, educação e assistência social. Ministrante dos cursos de Barras de Access® e Facelift® Energético e dos workshops de MTVSS® e Circuitos no Centro.

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