• Eduardo Alves

Textos difíceis de serem escritos



Quero começar nosso papo de hoje compartilhando contigo uma história bastante significativa para mim.


Em 2020, peguei pouco meus cadernos para escrever livremente sobre meus sentimentos. Tive pouco ou quase nenhum tempo para olhar para as minhas necessidades com cuidado e amor. Passei por muitas situações onde meu foco estava em solucionar problemas. Nestas situações é comum vivermos muita tensão e pouca reflexão.


O resultado de uma caminhada dessa forma, você já deve saber, é a conquista do Troféu do Cansaço, aquele que ocupa até os nossos ossos, e a Medalha da Exaustão, que nos dá incapacidade de pensar com clareza. Em setembro daquele ano, ainda no centro dos acontecimentos, perdi duas pessoas queridas, minhas avós, num intervalo de apenas 8 dias. Elas já vinham com bastante tempo na estrada da vida. Com o isolamento provocado pela pandemia, cada dia parecia se tornar um ano a mais na linha do tempo de cada uma delas.


Assisti meus pais agoniados pela possibilidade da partida de suas mães e, então, o que era um medo, se concretizou. Quis protegê-los e evitar mais sofrimento e, por isso, resolvi assumir a resolução de tudo o que fosse de ordem prática. Cartório, velório, cemitério, enterro… Fiz isso por duas vezes em 8 dias. Fiz isso por duas vezes para duas mulheres que foram extremamente importantes na formação da minha personalidade.


Eu não chorei naqueles dias 10 e 18 de setembro de 2020, não derramei uma só lágrima pelas semanas seguintes. Tudo aquilo ficou represado dentro de mim, como se eu não pudesse viver a dor que estava ocupando os demais.


Os meses se passaram e eu sentia algo dentro de mim que precisava sair. Seguia, no entanto, resolvendo problemas, acolhendo as dores dos outros e tratando dos assuntos cotidianos. Eu buscava voltar para a vida como se aquilo tudo pudesse não existir. Eu hoje sei que não queria ter que lidar com aquilo que estava dentro de mim.


Em dezembro, eu me lembro bem, sentei-me à minha mesa de trabalho e comecei a chorar sem entender o que era. Um rio fluía fortemente de meus olhos e eu não podia barrar a força daquelas águas. Presto a atenção em minha respiração, sentindo o ar entrar e sair do meu peito, com o objetivo de não me afogar em mim mesmo. Nesse momento, perguntei-me o que estava acontecendo. Em um pensamento, que logo pulou para o primeiro pedaço de papel perto de mim, escrevi: “o natal se aproxima. A Dinda e a Vó Joana adoravam esta data.”


Naquele instante, a escrita difícil, porém sem energia para demonstrar tamanha importância, me pedia urgentemente espaço numa página em branco. Aquele rio precisava ganhar um curso, um desfecho, e desembocar num mar mais calmo. Foi nesse dia que nasceu o texto Cartas de Natal. Numa busca por me despedir, do meu jeito, de duas pessoas que estão na base da minha família, escrevi palavra por palavra recordando o melhor que tínhamos juntos.


Recordar a felicidade que construiu nossos dias me fez encontrar paz em meu coração e, junto disso, o lugar que quero que elas morem em mim. Estamos, sim, conectados para sempre pelo mesmo sangue, mas, principalmente, pelo partilhar das mesmas narrativas de vida.


Textos difíceis vão existir sempre


Aceitar o momento e o lugar que nossos textos pedem para ganhar vida é parte da nossa jornada de autoconhecimento, da escrita como terapia e do contato com a nossa Selfie. Mais do que a forma que o texto ganha no papel ou num word em branco, é o que você sente, ouve, observa e ressignifica que importa.


Sentir o momento da escrita significa perceber as sensações que te ocupam enquanto as palavras passam por você. As frases ali presentes são suas e, por mais difícil que seja lidar com eles tangíveis agora, é importante reparar no que elas geram em você. Ouça os sinais à sua volta, como os do próprio corpo. O estômago está bem enquanto a caneta corre pelo papel? Você sente um alívio pelo corpo ao botar para fora tudo aquilo? Sente seus pelos arrepiarem enquanto aborda este assunto?


Observe, posteriormente, as palavras que constroem a sua narrativa. Elas são acolhedoras? São agressivas? São termos que habitualmente não usaria, com os quais não se sente confortável? E, por fim, abra-se para ressignificar aquele momento por meio da consciência mais profunda do objetivo desta narrativa ganhar forma agora no papel. Ela está ali para ir além do contar uma história. Pergunte-se: o que eu aprendi com isso até agora? E o que eu aprendo quando me abro para transformar isso?


Olhe com coragem e curiosidade para aqueles temas mais delicados dentro de você e entregue-se para viver a transformação por meio da palavra, da sua palavra, no papel.


Com carinho,


Edu Alves